Revolução dos Cravos

De: RFI Português
  • Resumen

  • Acompanhe aqui várias reportagens em torno dos 50 anos da Revolução dos Cravos em Portugal. Em Paris e em Lisboa, conversámos com resistentes à ditadura portuguesa, pessoas que viveram a repressão, a censura, a prisão, a clandestinidade, a luta armada, o exílio, a guerra e a “Revolução dos Cravos”. Todas as semanas, até ao final da Abril, há novos episódios.

    France Médias Monde
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Episodios
  • A história do oficial de Marinha que trocou a ditadura pela liberdade
    Mar 27 2025

    O livro “Itinéraires du Refus”, de Jorge Valadas, conta a história de um jovem e, através dele, de um século marcado por escolhas e rupturas decisivas. Jorge Valadas optou pelo caminho da dissidência e da liberdade nos “anos silenciosos” da ditadura portuguesa. Disse não à guerra colonial e desertou da Marinha. Depois, participou activamente no Maio de 68, em Paris, militou contra a guerra no Vietname nos Estados Unidos, e viveu o período revolucionário em Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Cinquenta anos depois, escreve que “desobedecer é o primeiro dever de liberdade”. O livro “Itinéraires du Refus” é apresentado, esta quinta-feira, em Paris.

    A ditadura, o medo, o silêncio, a deserção, o Maio de 68, o 25 de Abril e o exílio são alguns dos temas que percorrem “Itinéraires du Refus”, de Jorge Valadas. A partir da sua história e das suas escolhas e caminhos a contra-corrente, Jorge Valadas convoca uma história colectiva.

    “É o percurso da minha vida a partir do momento em que tomei uma decisão de fazer uma ruptura que marcou completamente a minha existência e as minhas relações com o mundo. Foi o momento do abandono da sociedade portuguesa com tudo o que ela me significava de opressivo e de repressivo em circunstâncias históricas particulares que eram as da guerra colonial e do regime salazarista. A minha recusa da sociedade portuguesa abriu-me, de certa maneira, para o mundo”, conta à RFI Jorge Valadas.

    Contra o silêncio, contra o medo, contra a repressão. Contra a guerra colonial, o colonialismo e a ditadura. Jorge Valadas escreveu e assumiu os seus “itinerários”. Desertou da Marinha porque - como tantos milhares de homens - recusava a guerra contra os que lutavam pela independência. Disse não a todo um sistema repressivo que começava em casa, continuava na rua e se lia nos silêncios e obediências forçadas. No colete de forças da ditadura, “desobedecer é o primeiro dever de liberdade”, lemos no livro, e “o exílio é um caminho escolhido”. Falar da deserção à guerra colonial é romper silêncios em torno de um tema de que ainda pouco se fala e é também contrariar "um período de amnésia histórica enorme" em Portugal.

    Meses depois de chegar a França, vive o Maio de 68 e leva em cheio com o contraste entre o silêncio de Portugal e as maiores manifestações em França no século XX. Viveu e participou em tudo intensamente. E recordou-nos algumas das imagens e dos momentos mais marcantes.

    Nesta conversa, conta-nos também o que fazia junto com os camaradas da “tribo” do grupo Cadernos de Circunstância, em Paris, incluindo o episódio em que enviaram material para Portugal dentro de um “submarino comprado pelo regime fascista português à democracia francesa”. Entre os participantes, dois amigos que integrariam “o sector mais revolucionário do MFA na Revolução dos Cravos".

    Jorge Valadas também nos recorda sobre como viajou para os Estados Unidos com um passaporte falso feito pelo “aluno português do mestre Kaminsky”, um falsificador mítico, e como aí continuou a viver o seu Maio de 68. Curiosamente, o Maio de 68 continuaria, mais tarde, em Portugal, uma semana após o 25 de Abril de 1974, quando regressa no comboio Sud Express. Antes da efervescência das ocupações e das lutas - sobretudo das mulheres que acompanhou, por exemplo, na fábrica Santogal, no Montijo - há um episódio que Jorge Valadas recorda emocionado e que também conta no livro. É quando chega a Vilar Formoso e um soldado lhe agradece por ter desertado. Graças a ele e a homens como ele, é que se chegou à Revolução, disse o furriel.

    Ao longo do livro, o tema do exílio é outro fio condutor. “Um exílio que começa em Lisboa”, que é “uma força que liberta mas também que aliena”. Será este livro uma forma de reparar a “ferida do exílio” e de se reconciliar com Portugal? “Foi uma reparação, mas eu regresso a Portugal regularmente e nunca está reparado porque reaparece sempre (...) Reaparece sempre esse desconforto entre o que voltamos a encontrar e que nos reconcilia com o passado e aquilo que não queremos encontrar e que está lá de novo.”

    “Itinéraires du Refus” é o segundo livro da colecção “Brûle-Frontières” da editora Chandeigne & Lima, depois de “Souvenirs d’un futur radieux” de José Vieira. O livro foi publicado a 21 de Março e é apresentado esta quinta-feira, na Livraria Jonas, em Paris.

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  • O “Cinema de Abril” contado pelo "Capitão Fellini"
    Nov 21 2024
    Fernando Matos Silva foi um dos nomes do “Cinema de Abril”, quando o cinema retratou a Revolução dos Cravos e se deixou transformar por ela. O seu primeiro filme foi o último a ser proibido pela censura do Estado Novo, depois foi um dos fundadores de um colectivo que filmou as lutas revolucionarias pós-25 de Abril e também desmontou os mitos do “Império” com imagens que rodou às escondidas quando era conhecido como “Capitão Fellini”. Fomos conhecê-lo, à margem de um ciclo sobre cinema revolucionário português, em Paris. Assim que a madrugada “emergiu da noite e do silêncio”, naquele “dia inicial, inteiro e limpo”, Fernando Matos Silva começou logo a filmar com os companheiros que tinham preparado todo o material na véspera. Aguardaram, à noite, em casa, as duas senhas do 25 de Abril e horas depois estavam em frente ao Rádio Clube Português. Eram as primeiras imagens da Revolução dos Cravos, Portugal escrevia história e Fernando Matos Silva filmava as primeiras manifestações de liberdade. E continuou por esses caminhos, os da liberdade, até hoje, aos 84 anos.“A palavra mais gritada era liberdade, liberdade, liberdade”, conta empolgado, fazendo renascer aquelas imagens de um povo exultante que tanto marcaram quem as viveu e quem as tem herdado. A conversa com “um dos cineastas essenciais para compreender o Cinema de Abril” - como resumiu o catálogo da retrospectiva feita pela Cinemateca Portuguesa em Janeiro de 2024 - acontece horas antes de um ciclo de cinema intitulado “A Revolução das Imagens – Revolução e Descolonização em Portugal (1974-1977)” na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris.Esta foi uma homenagem ao cineasta que já participava na “revolução das imagens” em Portugal antes da Revolução dos Cravos e antes da efervescência do “Cinema de Abril”. Fernando Matos Silva foi uma figura importante do Cinema Novo português, o movimento que sacudiu a história desta arte em Portugal.Estudante de Economia apaixonado pelo cinema, bem jovem inscreveu-se no curso de Cinema Experimental do produtor António da Cunha Telles, em 1961, e a ele ficou ligado como assistente em produções como “Os Verdes Anos” (1963) e “Mudar de Vida” (1966) de Paulo Rocha, “Belarmino” (1964)de Fernando Lopes ou “As Ilhas Encantadas” (1965) de Carlos Vilardebó.Estudou, depois, cinema, entre 1963 e 1965, na London School of Film Technique, onde viveu a efervescência das novas vagas cinematográficas. De 1969 a 1971 andou pelos Serviços Cartográficos do Exército na Guiné-Bissau e em Angola, onde conheceu futuros capitães de Abril e onde filmou o que lhe pediam e o que não era suposto.A sua primeira longa-metragem, “O Mal Amado” (1974) foi o último filme a ser proibido pela censura do Estado Novo e o primeiro filme português a estrear após o 25 de Abril.Foi uma filmagem quase secreta, não houve uma única entrevista a não ser no último dia quando filmámos a cena do candeeiro com um beijo muito longo e que é muito bonita. Só nessa altura é que houve uma notificação pública de que o realizador Fernando Matos Silva acabava, naquele dia, o filme “O Mal Amado”. Fiz a montagem, os acabamentos e, em Setembro de 1973, o filme foi para a censura. A censura viu e disse que eu era iconoclasta, destruidor da família, destruídor da Nação, dos bens morais, que era um atentado à família… Depois vieram ameaças, vieram telefonemas, ameaça de destruição do filme…“O Mal Amado”, rodado em Maio e Junho de 1972, era um filme a pensar na revolução... O jornal Público fala dele como “um dos mais extraordinários retratos sociais da panela de pressão que era Portugal nos últimos tempos do regime”. Ainda que o realizador admita que sabia que se estava a preparar algo entre os capitães, não sabia quando, nem como. Pelo menos foi o que disse a uma espectadora no dia da estreia do filme - a 3 de Maio de 1974 no cinema Satélite, em Lisboa. Explicação essa que não a convenceu...É uma história lindíssima. Houve uma senhora de idade, no fim, que disse: “O senhor é que é o realizador da fita?” E eu disse: “Sou”. E ela: “Diga-me lá uma coisa, o senhor já sabia que ia haver a revolução, não já?” E eu: “Quer dizer, eu por acaso no dia 24 estava na Revolução, sabia, mas quando fiz o filme não sabia”. E ela: “Sabia, sabia! Então o senhor até tem o General Costa!” Porque há uma cena muito bonita que são os velhos conspiradores, que sou eu, o meu irmão e o Álvaro Guerra - os autores do filme - a fazerem de velhos e a conspirarem.Foi no dia 24 de Abril que o amigo jornalista Álvaro Guerra lhe ligou para preparar “o jantar”. Ora, “o jantar alentejano” era a senha, entre eles, que a Revolução estava a chegar. Fernando reuniu, então, os companheiros para “o jantar”, prepararam a fita a preto e branco e a Paillard de 16mm, ouviram o “E Depois do Adeus” e a ...
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  • "Revolução dos Cravos": "A libertação das vozes e das utopias"
    Apr 26 2024
    O livro “La Révolution Des Oeillets Au Portugal – Du pouvoir populaire au pouvoir parlementaire” ["A Revolução dos Cravos em Portugal – Do poder popular ao poder parlamentar"], de José Rebelo e Maria Inácia Rezola, é lançado, em França, na semana dos 50 anos do 25 de Abril. A obra junta reportagens escritas entre 1975 e 1976 por José Rebelo, então correspondente do Le Monde em Lisboa, acompanhadas por uma contextualização histórica. Foi o período da "libertação das vozes e das utopias". RFI: Foi para o exílio, em Paris, em 1969, e entra no jornal Le Monde em 1972. Qual foi o ambiente na redacção no dia 25 de Abril de 1974? E como é que era essa primeira página de há 50 anos?José Rebelo, Autor de “La Révolution Des Oeillets Au Portugal – Du pouvoir populaire au pouvoir parlementaire”: O ambiente foi extraordinário, sobretudo da parte de alguns jornalistas franceses do Le Monde que já tinham ido a Portugal. Penso no Marcel Niedergang que conhecia bem Portugal e tinha as suas fontes de informação em Portugal. Foi ele que se encarregou nesse dia de tratar a questão portuguesa. A questão portuguesa ocupou a primeira página do jornal com títulos a toda a largura, à excepção de 'Bulletin Français' que vinha sempre à esquerda, mas em todas as outras colunas o título dizia respeito à revolução, que não se sabia ainda muito bem como é que ela ia ser dirigida. Mas o que se noticiou logo no dia 25, desde a primeira edição do Le Monde, foi que havia um movimento militar em Portugal e que a queda do regime era iminente.Volta para Portugal quando o Le Monde decide criar o posto de correspondente permanente em Lisboa. Inicia funções em Janeiro de 1975 e conta que a partir daí viveu “o período mais exaltante” da sua vida. Porquê?Exactamente. E é, aliás, por isso que escolhemos este período de 1975 e 76. Durante este período, eu escrevi cerca de 240 artigos e nós escolhemos 53 que consideramos mais significativos. E porquê? Porque 1975 foi o período da explosão popular. Foi sobretudo após uma tentativa de golpe de Estado da direita, o 11 de Março. E aí as posições radicalizaram-se à esquerda. Foi quando começaram as ocupações de casas que tinham sido deixadas pelos proprietários, muitos dos quais fugiram para Espanha, para o Brasil. Foi nessa altura que começaram as ocupações das fábricas que passaram a ser geridas por comissões de trabalhadores. Foram ocupadas propriedades agrícolas no Alentejo, os grandes latifúndios, com a criação de unidades colectivas de produção. O Partido Comunista tinha uma posição forte junto destas comunidades, impulsionando e encorajando essas ocupações. Mas o movimento alargou-se muito, não era só o Partido Comunista. Houve uma multiplicidade de organizações da esquerda mais radical que participavam também neste movimento. E, sobretudo, o que é extraordinário é que havia gente que se manifestava e gente que gritava nas ruas sem pertencer a nenhum partido. Foi uma espécie de libertação das vozes e das utopias das pessoas que pensavam que conseguiam tudo realizar e que se juntavam. Juntava-se um grupo e ocupava, mesmo sem ser com um partido político a apoiar. Nessa altura fala-se muito do poder popular, o poder popular que extravasa as próprias dimensões partidárias.O PREC, Período Revolucionário Em Curso, foi marcado por confrontos políticos e pela rivalidade entre a legitimidade revolucionária e a legitimidade eleitoral. Mas o que é certo é que viu emergir esse tal poder popular que levou a que muitos acreditassem que essa via revolucionária popular pudesse vencer. Sentiu isso?Sim, eu senti. Não estava muito claro o que é que as pessoas queriam efectivamente fazer, qual era o modelo político. Quase que podíamos pensar nesse modelo mais pela negativa do que pela positiva, isto é, pensava-se democracia, sim senhor, mas não na democracia tradicional europeia. Daí que alguns grupos e até mesmo militares fossem apelidados de terceiro-mundistas porque pensavam um bocado naquele sonho do terceiro mundo. Não havia uma ideia muito clara quanto às instituições a criar, mas havia uma vontade clara que era de fazer alguma coisa de diferente. No género de economia directa, das tomadas de decisão por grupos de trabalhadores informais, etc, sem serem enquadrados politicamente. Foi extraordinário. Depois, há uma confrontação entre duas legitimidades: a legitimidade eleitoral, sobretudo pelo Partido Socialista, e a legitimidade revolucionária, sobretudo pelo Partido Comunista. O Partido Comunista, que invocava, para defender a sua posição como expressão da legitimidade revolucionária, a resistência contra o salazarismo e os seus heróis e os anos que passaram na cadeia e as torturas a que foram sujeitos. O Partido Socialista não tinha este passado. O Partido Socialista tinha sido criado na Alemanha pouco tempo antes. O que sucedeu foi que, em 25 ...
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